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Do Vô Leonel a Carl Rogers

  • 14 de fev.
  • 3 min de leitura

Eu nasci em uma casa que tinha uma harmonia estranha e contraditória. Minha avó, meu pai, minha mãe e minha irmã destoavam de uma forma quase bonita das outras pessoas que eu conhecia. Parecia que a gente fingia uma certa tranquilidade e acreditava nela de verdade. Mas era meu avô que orquestrava o ritmo da casa toda. 


Muito antes de eu nascer, o vô Leonel já carregava um fardo, com nome e sobrenome. Transtorno Maníaco-Depressivo. Hoje a gente chama de Transtorno Bipolar mas Infelizmente, nunca deixou de parecer uma ofensa. Durante algumas semanas intermináveis, o ritmo da casa era triste. Era preciso prestar muita atenção para perceber que existia alguém no quartinho em que ele se protegia do mundo. O semblante dele era distante, como quem não estivesse ali de verdade. Parecia errado conversar com ele nesses dias. O constrangimento era quase insuportável de presenciar. 


E então, como um vendaval repentino, a tristeza dava lugar ao som da viola que podia ser ouvido pelo bairro inteiro. Era a mesma pessoa e ao mesmo tempo outra completamente diferente que estava ali, falando alto, rindo alto e impregnando tudo com seu cheiro de alho e cominho. A casa se enchia de vida de uma forma caótica, se enchia dos amigos que ele tinha, que iam desde as pessoas das comunidades vulneráveis que ele ajudava até nossas amigas da escola.


Todo dia era seu aniversário, ele tinha um espírito empreendedor, era muito artístico e gostava de usar uma camisa vermelha de cetim. A casa não dormia nunca, as brigas eram aos berros e minha vó colocava cadeado na geladeira. Muito da pessoa criativa que eu sou hoje, veio dessa época.



Com o passar do tempo, a naturalidade com que tudo era tratado, deu lugar a um sentimento de vergonha e curiosidade. Eu percebia o peso do estigma que ele carregava, tinha vontade de protegê-lo, ao mesmo tempo que atribuía pouca importância às coisas que ele dizia. Eu ainda não conseguia nomear a desumanização que ele enfrentava todos os dias da sua vida, de alguma forma. 


Alguns anos depois, lá estava eu em uma aula de psicopatologia, com meus miolos fritando diante das intermináveis e complexas teorias sobre o que me parecia tão familiar. Algumas das características que eu admirava e até me identificava eram descritas por um grupo de pessoas como desajuste. Minha curiosidade me deixou obcecada e angustiada diante daquelas explicações todas. Mesmo aprendendo, faltava alguma coisa, existia algum incômodo.


O meu primeiro encontro com um livro sobre a Abordagem Centrada na Pessoa aconteceu no fim da graduação, justamente quando, diante de todos aqueles modelos, eu começava a questionar a minha própria capacidade de me ajustar àquela forma de Psicóloga. Rogers me ensinou, de uma forma que seria exaustivamente lapidada no futuro, que considerar com respeito a experiência de cada pessoa exatamente da forma que era apresentada é uma característica indispensáveis para uma relação terapêutica. 


Foi alívio à primeira vista. Daquele livro em diante, eu consegui me enxergar como Psicóloga. Eu parei de me questionar se conseguiria consertar as pessoas e passei a me questionar se eu conseguiria ser uma pessoa ouvindo outra pessoa. Esse questionamento era sobre minha própria identidade também, que estava sendo atualizada para acomodar uma prática profissional que não me invalidasse. Carl Rogers nomeou com palavras algumas das coisas que meu avô já havia me ensinado desde sempre sem nem saber.


Critérios diagnósticos não falam sobre pessoas. Poder ser quem você é tem mais a ver com saúde do que tentar caber em mil moldes prontos, por mais diferente que possa parecer para quem busca na normalidade uma saída. Antes de qualquer outra coisa existe uma pessoa diante de mim, é com essa pessoa que eu quero estar. Não como alguém que tem os caminhos certos, mas como uma pessoa que se esforça para ser real. Afinal, eu aprendi com os melhores que ser real é muito importante. 

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