Evoluir para menos
- 14 de fev.
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Uma das coisas que mais me tira do eixo é a pressa. Estar atrasada ou precisar dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo é hoje, para mim - e acredito que para muitas pessoas - um fator importante de estresse e até de sofrimento.
Em A vida não é útil, Ailton Krenak nos convida a pensar sobre a nossa ideia de tempo, entendida como algo que avança em linha reta, como uma flecha sempre em direção a algum lugar, e que, por isso, está na raiz do nosso engano e do nosso descolamento da vida.
Eu me pergunto com frequência sobre quais atitudes reais de cuidado são possíveis diante do cansaço. “Nós temos o direito à autonomia”, eu ouvi esse termo de uma pessoa esses dias e achei interessante. É importante lembrar que é um direito, justamente porque não é raro nos deparamos com expectativas e pressões externas.
O caminho certo pode parecer aquele que todo mundo quer seguir, que alguém importante disse ser o melhor, aquele que vai agradar mais ou desagradar menos. Por isso, nós temos, não só a responsabilidade, mas o direito de escolher e tomar decisões que sejam mais coerentes com as nossas necessidades.
Ainda que tentar dar conta de tudo tenha o objetivo nobre de fazer as coisas acontecerem, a verdade é que na maior parte das vezes eu estou andando em círculos. O meu cansaço no fim do dia nem sempre é percebido como um sinal do meu corpo de que eu deveria desacelerar, às vezes me parece mais como um troféu de plástico, que carrega a ilusão de que eu estou mais perto de onde eu deveria estar.
Portanto, tentar dar conta de tudo já não é mais algo de que eu me orgulhe. Eu não quero que os meus objetivos de vida tenham compromisso com o alto rendimento. Tenho trabalhado para que minha referência de sucesso me humanize.
Nenhum processo acontece somente com luta. Os sentimentos precisam ser processados, as ideias precisam ser amadurecidas, o corpo precisa de repouso. Meu valor não depende do quanto eu consigo fazer, ele tem mais a ver com o quanto eu consigo estar presente de verdade nas relações e nos projetos que me proponho a cultivar.

Uma vez, minha irmã - que uma psicóloga de abordagem psicanalítica - me disse sobre o conceito de evoluir para menos. No consultório isso tem a ver com o paradoxo de que se tentarmos a qualquer custos sermos resolutivas demais em um processo, a experiencia da pessoa, que é o mais importante, se perde no caminho. Nesse caso, a evolução tem mais a ver com reduzir do que com resolver.
Na vida, eu tenho tentado seguir na mesma direção. Tenho tentado evoluir para menos. A maior libertação que tenho experimentado é encontrar espaço para fazer companhia para mim mesma. A gente precisa de espaço pra poder se reconhecer e para poder existir! É super difícil, nem sempre eu consigo, mas quando eu consigo, eu comemoro! Com isso, meu corpo tem vivido menos no estado de alerta. Ufa, isso sim não tem preço!
Na minha última aula de ioga de 2025, o convite que a professora fez para o próximo ano foi pensar sobre o que queremos reduzir ao invés do que queremos acrescentar em nossas vidas. Eu aceito o convite. No próximo ano eu não quero mais coisas, eu quero menos coisas. Menos performance, menos comparação, menos competição, menos consumo sem sentido. Talvez seja uma utopia, mas eu gosto de utopias. Como diria Eduardo Galeano, elas nos fazem caminhar.
Caroline Leonel, 20/12/2025


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