Viver em estado de sim
- 14 de fev.
- 2 min de leitura
Atualizado: há 21 horas
Oração para Desaparecer, de Socorro Acioli, foi o livro escolhido depois de uma leitura densa sobre os saberes do corpo. Li rápido no começo, minha imaginação se alimentava de cada palavra, tudo me encantava! Quando faltavam alguns capítulos para o fim, eu não conseguia mais continuar. Por mais que estivesse curiosa, imersa, identificada, eu travei!
Eu não tentei entender demais, depois de alguns dias, ele já tinha se misturado aos outros da prateleira. Foi então que eu li uma frase que dizia “É preciso reconhecer um fim…" E me dei conta de que eu não queria encerrar alguma coisa naquele livro. Encontrei um aperto, meu corpo respirou como quem agradecesse por eu ter entrado em contato com aquela sensação. Eu me reorganizei e eu fui terminar minha leitura.
O choro veio como eu imaginei. Acumulado de outras coisas, estava ali esperando pra acontecer. O desfecho não tinha nada a ver com o que eu tinha imaginado. No fim das contas, as coisas nunca são exatamente como nós imaginamos que elas seriam.
Mas uma parte, em específico, me marcou: “Minha mãe está partindo e me disse, perto de silenciar para sempre, que eu tenho que aprender a viver em estado de sim. Que, quando eu estiver em um momento bom, devo ficar completamente nele, não sair dali, assentar o Orí na beleza da vida, não deixar a cabeça levar para nenhuma parte que não seja estar feliz, inteira no que sinto, porque depois pode ser esquecimento. Vai ser. Só não se sabe quando.”
Essa frase me transformou imediatamente. Eu li muitas vezes, fiquei dias pensando, processando, digerindo. Junto com a dificuldade de experienciar o fim, também existia um estranhamento com a ideia de viver em estado de sim. Foi só escrevendo esse texto, que eu pude organizar o fato de que essas duas coisas estão ligadas.

Ouvir o que o desconforto solicita, através dos sentimentos e das emoções, nos ajuda a nutrir um tipo muito específico de confiança em nossa própria experiência. Só que dar espaço para as sensações do corpo envolve também a parte boa da vida. Envolve a alegria! Isso já era bem sabido pra mim, bastante praticado até. Nem tudo é desconforto! Mas Socorro foi muito além disso, inaugurou em mim uma nova perspectiva sobre o fim.
Me lembrou de uma reflexão recente sobre a morte, que nos impulsiona a valorizar as coisas bonitas da vida. É justamente porque as coisas acabam, porque são esquecidas, que eu quero aprender a permanecer nos momentos bonitos, e somente neles, enquanto eles estiverem existindo, sem permitir que os meus pensamentos tenham a audácia de ir pra canto algum! É preciso prática para não permitir que a cabeça escape para outro lugar. Uma prática que eu que eu quero lapidar pelo único e simples motivo de que tudo vai acabar, vai ser esquecimento. Só não se sabe quando.
Caroline Leonel




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